terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Quando a Igreja se Torna Como o Mundo


Pr. Wilson Franklim

Estamos vivendo uma época em que o mundo passou a avaliar tudo apenas pelo resultado. É filosofia do pragmatismo. O que é pragmatismo? O pragmatismo é muito semelhante ao utilitarismo. É a crença de que os resultados, e/ou utilidade, estabelece o padrão para aquilo que é bom. Para um pragmatista/utilitarista se uma técnica, ou mesmo um método produz o resultado desejado, a utilização de tal recurso é válida.

Afinal de contas, o que há de errado com o pragmatismo, uma vez que até o bom senso tem uma dose de pragmatismo legitimo? Se um remédio não produz o efeito esperado, procura-se o médico e solicita-se outro medicamento que funcione. Quando entramos em nosso quarto e acionamos o interruptor, e a lâmpada não acende, trocamos a lâmpada. Se a nova lâmpada acende, é razoável supor que o problema estava na lâmpada "queimada". Portanto, realidades pragmáticas simples como essas por si mesmas são óbvias.

1. O Problema

Quando, porém, se USA o pragmatismo para estabelecer juízos acerca do certo e do errado, ou quando se faz dele uma filosofia de vida, que passa a dirigir a teologia, ou do ministério, haverá inevitavelmente um choque desastroso com as Sagradas Escrituras. Veja porque:

As realidades bíblicas e espirituais não são determinadas tomando-se como base o que funciona, o que não funciona. Observe que, em I Co 1.22,23; e 2.14, Paulo nos alerta que nem sempre o Evangelho produz uma resposta positiva. Por outro lado, as heresias e o engano satânico podem ser bastante eficazes (Mt 24.23,24; 2Co 4.3,4). Jesus também alerta que a reação da maioria nem sempre pode ser usada como parâmetro seguro para determinar o que é válido. Outro aspecto igualmente importante é que a prosperidade não serve para constatar a veracidade (Jó 12.6).

De uma maneira sutil, em vez uma vida regenerada, é a aceitação por parte do mundo e a quantidade de pessoas presentes nos cultos que vem se tornando o alvo maior das igrejas contemporâneas. Pregar a Palavra e confrontar o pecado com ousadia são vistos como coisas antiquadas, meios ineficazes de alcançar o mundo para Cristo. Essa maneira de pensar distorce por completo a missão da igreja, porque a Grande comissão não é um manifesto de marketing. O evangelismo não precisa de vendedores, e, sim profetas. A semente que produz o novo nascimento é a Palavra de Deus (I Pe 1.23).

2. Os Efeitos do Pragmatismo Entre Nós
2.1. Mudança de culto de Teocêntrico para Antropocêntrico

Um dos sinais mais visíveis do pragmatismo na área evangélica são as mudanças convulsivas que, nas últimas décadas, tem "revolucionado" o culto nas igrejas. Onde a filosofia passou a ser planejar e realizar cultos dominicais que sejam mais divertidos do que reverentes. Mais show do que adoração. O resultado é culto mais centrado na pessoa humana (antropocêntrico), do que centrado na pessoa de Deus (teocêntrico). O mais grave é que a teologia é forçada a ceder o lugar de honra à metodologia. Vejam o que escreveu Elmer l. Towns: "antigamente a declaração de fé representava a razão de ser de uma denominação. Hoje, a metodologia é o vínculo que mantém as igrejas unidas. Uma declaração ministerial define a igreja e sua própria existência ministerial" . Observem a sutileza desta afirmação, ele diz entre linhas, escancaradamente, que Deus, Jesus e o Espírito Santo e a sua Santa revelação deixaram de ser o vínculo de união entre as igrejas. Por incrível que pareça muitos acreditam que essa idéia é um avanço para igreja atual. Alguns pastores chegam a afirmar que a igreja dos nossos dias precisa de algo mais do que as quatro prioridades apresentadas no livro de Atos - A doutrina dos apóstolos, a comunhão, o partir do pão e as orações (At 2.42).

2.2. Surgimento de Novas Metodologias
Encantados na onda do "resultado", de encher rapidamente as igrejas, muitos líderes embarcaram numa verdadeira corrida aos mais variadas metodologias de "crescimento". Livros dos mais variados foram escritos, uns incentivando o marketing , outros a auto-ajuda, outros entretenimento e muito mais. O resultado é que a recreação, o entretenimento, e mesmo a música, de forma perspicaz, passaram a apagar o verdadeiro culto e a comunhão dominical. Irmãos, não podemos colocar nossa confiança em métodos e fórmulas. Nossa confiança deve estar no Todo Poderoso. Mas, há um detalhe muito especial: é preciso ter vida espiritual, é preciso haver dedicação, é preciso ter o caráter de Jesus. É obvio que a espiritualidade tem um custo.

Por outro lado, com as fórmulas e métodos não é preciso ser espiritual, não é preciso gastar tempo recebendo a mensagem de Deus, não é preciso ter uma vida devocional, basta seguir as fórmulas de marketing, agradar ao povo, Dar um show nos púlpitos...

Nesse embalo, novos e bonitos nomes tais como: "celebração", "gospel", "nova unção", "renovação", foram inseridos em nosso linguajar, para justificar "novos tempos". A pregação é encarada como antiquada principalmente a pregação expositiva. "Ninguém se preocupa em verificar se o que está sendo pregado é verdadeiro ou falso. Um sermão é um sermão, não importa o assunto; só que quanto mais curto melhor" . Já faz mais de cem anos que Spurgeon proclamou essas palavras, mas infelizmente elas ainda continuam atuais para os nossos dias.

3. Será Que Toda Inovação é Errada?
Não é à inovação em si que me oponho. Tenho consciência de que os estilos de adoração estão em constantes mudanças. Se Spurgeon chegasse à nossa igreja hoje, ele não gostaria de nosso órgão, de nossa orquestra. Não sou preso a esse ou aquele estilo de música ou liturgia. Na realidade sou contra a estagnação das igrejas. Também não alimento nenhuma intenção de fabricar normas arbitrárias a fim de dizer o que é aceitável ou não nos cultos. Todavia, meu embate é contra a filosofia que relega Deus e a sua Palavra um papel secundário na igreja. Discordo daqueles que acreditam que técnicas e métodos humanos podem resgatar almas para os céus com mais eficiência do que o Deus Todo Poderoso. Nessa altura, as palavras de MacArthur merecem uma especial atenção: "Se existe algo que a história nos ensina, este ensino é que os ataques mais devastadores desfechados contra a fé sempre começaram com erros sutis surgidos dentro da própria igreja".

Conclusão
O pragmatismo como filosofia norteadora do ministério é defeituoso e desleal para com a igreja de Jesus Cristo. Como prova de veracidade, chega mesmo a ser satânico, porque atende aos objetivos do maligno de afastar o crente da realidade da Palavra de Deus, de que as Escrituras são uma questão de vida e não apenas de crença.

Qual o tipo de ministério que agrada a Deus? "Prega a Palavra" (II Tm 4.2). O centro de nossos ministérios deve ser a obediência a esse simples mandamento. A tarefa do pregador é proclamar as Escrituras (Rm 10.14; Ne 8.8). Não há outra fórmula, pregar é o compromisso maior de nosso chamado. Se, não atendermos com urgência a essa vocação, nossos ministérios serão puxados para o declínio, e nos veremos em busca do pragmatismo, aplicando na igreja os padrões do mundo.

Nos dias atuais é importante que "a teologia mantenha o diálogo com as demais ciências, sem jamais perder seu elemento máximo: a fé nas sagradas Escrituras" . Por outro lado, a falta de temor a Deus, que tem caracterizado a presente geração de adoradores, tem produzido uma adoração sem qualquer senso de reverência ao Adorado.

Minha oração é que este artigo instigue nossa forma de pensar, conduzindo-nos à Palavra de Deus, "para ver se as coisas" são "de fato assim" (At 17.11).

2 comentários:

Levi Bronzeado dos Santos disse...

Prezado Davi Buriti

Este período extraído do seu texto, resume todo o poblema religioso da modernidade:

"Quando, porém, se USA o pragmatismo para estabelecer juízos acerca do certo e do errado, ou quando se faz dele uma filosofia de vida, que passa a dirigir a teologia, ou do ministério, haverá inevitavelmente um choque desastroso com as Sagradas Escrituras".


Tempos difíceis vivemos, em que o homem ao vivenciar a sua experiência espiritual particular, procura apoderar-se da consciência do outro ao máximo do que lhe é possível, de um modo simplesmente UTILITARISTA. A história nesse sentido tem exibido a passagem de um Deus-coisa, um Deus-objeto através das religiões. No dizer de Buber, “o homem aspira por uma continuidade da posse de Deus no espaço e no tempo[...]. Deus se tornou um objeto de fé”.
O Teólogo Joseph Woingt, discorrendo sobre o Deus do mundo ocidental, fez esta emblemática constatação: “Quando o Deus único é concebido como o deus de um só povo, que faz uma aliança com esse povo para estender a sua "dominação" sobre os demais, então, de fato, há risco de intolerância e violência”.

Cordialmente,

Levi B. Santos (www.levibronze.blogspot.com)

Misael Amorim disse...

Maravilhoso texto, abordei o mesmo tema em meu blog http://fogonopavio.wordpress.com/2008/12/07/sal-da-terra-luz-do-mundo/, oremos para que isso não seja uma tendência e seja combatido com todas as forças pelos verdadeiros adorados.